Só pego a Sophia na bandeira dois, nunca me apareceu ou ligou antes da meia-noite. Tem quase trinta anos e só uns três sonhos definidos. O resto
sempre foi “vamos ver no que vai dar”. Quando percebeu, já repetia
livros, ignorava filmes e preferia não pensar no que ainda ia ser.
Achava que a vida havia empacado, e empacava quando tentava encontrar
maneiras de ir um pouco além.
Foi numa dessas madrugadas bêbadas enquanto a levava de volta ao seu apartamento em ruínas na Augusta que
ela me confessou que tinha se acostumado a ir dançar para tentar sonhar com
soluções.
Sempre fala do passado, olhar em seus olhos é olhar para trás, só tem dor naqueles olhos imensos e borrados com ressaca.
Em uma de nossas noites ela entrou em meu carro chorando, todavia sorriu e soltou aquela gargalhada tímida dela e me perguntou se eu
achava que ela passaria a vida inteira revivendo as coisas do passado.
Gargalhei mais alto porque entendi que era óbvio que sim. Mas amanhã o
hoje já é passado também.