quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Depois da meia noite.

Só pego a Sophia na bandeira dois, nunca me apareceu ou ligou antes da meia-noite. Tem quase trinta anos e só uns três sonhos definidos. O resto sempre foi “vamos ver no que vai dar”. Quando percebeu, já repetia livros, ignorava filmes e preferia não pensar no que ainda ia ser. Achava que a vida havia empacado, e empacava quando tentava encontrar maneiras de ir um pouco além.
Foi numa dessas madrugadas bêbadas enquanto a levava de volta ao seu apartamento em ruínas na Augusta que ela me confessou que tinha se acostumado a ir dançar para tentar sonhar com soluções. 
Sempre fala do passado, olhar em seus olhos é olhar para trás, só tem dor naqueles olhos imensos e borrados com ressaca.
Em uma de nossas noites ela entrou em meu carro chorando, todavia sorriu e soltou aquela gargalhada tímida dela e me perguntou se eu achava que ela passaria a vida inteira revivendo as coisas do passado. Gargalhei mais alto porque entendi que era óbvio que sim. Mas amanhã o hoje já é passado também.